Cantar a Pele de Lontra III


GALERIA: CARAVAGGIO



Escrito por Claudio Daniel às 21h16
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POEMAS DA CAIXA PRETA (IV)

 

MORRE, CARAVAGGIO

 

A primeira versão é a que fica, a que luta pela incolumidade
Que não contravenha os fatos, mas com eles se lixa e quer terminante
A eles impor-se, como a filha do dono da tabacaria, “o tal do Esteves”
Que sempre supus fanfarrão: sardenta e com a mão na cintura.
Por anos acalentei a cena em minha interna retina, e começaria
O poema com a imagem de uma teia de aranha, deveras
Incólume a se o homem lá embaixo se morre e de quê
E com qual idade, e por qual razão. Aranhas não houve
Participativas, teias não construídas por um arquiteto, e jamais
A filosofia do encobrir um quadro de referência, um espelho dourado,
A múmia de um faraó, ocupou um inseto: tal seria o começo,
A versão fiel de uma cena dramática, “the death of an artist”,
Egregius in urbe pictor, como queria Clemente VIII Aldobrandini.
Pela teia, depois a aranha, logo o macerado corpo afundado
Num sujíssimo colchão sobre um sujíssimo catre, e logo o delírio
Final, frases conexas e inconexas, uma sintaxe mortuória, própria de
Quem avalia quem foi e sabe que morre, e morre
Feito animal esvaziado, um cão terminal.
Tal a primeira versão que nunca escrevi, e a tinha tão clara
Em minha retina, terá sido por não contar com um temperamento
Dramático, isso nos passa: Cecília, a mansa Cecília
Travestiu-se para romancear a Inconfidência,
Jorge enlouquecia quando se aproximava a Orfeu, e Carlos
Resmungava as noites brancas de Minas e um mas:
Mal sentava-se à mesa com o fantasma do pai:
Em seu Elsinore ninguém que deambulasse pelas ameias.
Assim somos, não mantemos altura ou pouco, votamo-nos
Ao presente e nossa alma a ele pertence. Vejo que bom foi
E bom é: a vontade da Musa mister aceitêmo-la.
A segunda versão
Não se impõe como um todo, e só se escreve por partes
E sem insetos que metaforizem a indiferença e um mas: Ferozes atuns
Rasgam do cadáver a carne com alvíssimos dentes e ferozes tenazes
De caranguejos ferozes, no fundo do mar. Nessa que escrevo
A morte deu-se antes e foi perpetrada, o mandante continua
A gozar em seu castelo de fâmulos e confortos de mignons
E os assassinos, vulgares , musculosos marujos
Sequer sabem a quem matam e menos quem lhes contratara.
Tal a última e a verdadeira versão já que possível
De escrever-se -a Musa assiste ao lado e é de silicone, não importa
O seu look, não importa se baba, se aprova o que faço: escrevo
Por que devo fazê-lo, para augurar que morra Caravaggio
Neste teclado, que seja o agora do poema a sua tumba final. Morre,
Caravaggio, morre afinal. Foste bulir com as carnes brancas
De um protegido, comer o cuzinho do menino do Mestre:
Morre, estafermo, já tinhas trinta e nove e ainda podia mais
O teu pinto que o teu pincel, assim sucumbem os intemperantes,
No Tirreno e no poema e para um terrível gáudio crustráceo,
Na escuridão mais atroz e numa segunda e correta versão.

 

(Do livro Homoeróticas, de Horácio Costa, publicado na coleção Caixa Preta, da Lumme Editor.)



Escrito por Claudio Daniel às 21h14
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GALERIA: HIERONYMUS BOSCH (XVIII)



Escrito por Claudio Daniel às 11h18
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ENQUANTO ISSO, NOS ESTADOS UNIDOS…

 

Caros, foi publicada nos Estados Unidos uma antologia de poesia brasileira contemporânea, organizada por Horácio Costa e traduzida por Charles Perrone, estudioso da cultura brasileira e professor na Universidade da Flórida. A seleção inclui quinze autores novíssimos de alta qualidade, como Adriana Zapparoli, André Dick, Leonardo Gandolfi, Eduardo Jorge, Virna Teixeira, Delmo Montenegro, entre outros. A antologia foi publicada na Tigertail South Florida Poetry Annual, vol. 6. Mais informações no site http://www.tigertail.org/home.html



Escrito por Claudio Daniel às 11h16
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GALERIA: HIERONYMUS BOSCH (XVII)



Escrito por Claudio Daniel às 11h10
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POEMAS DA CAIXA PRETA (III)

 

lição de anatomia

 

um contato pedra-

pomes para esfolar a pele

e demonstrar cientificamente a

pulsação muscular de um sentimento

morto

 

 

o sem-nome

 

vermelho-laca com grandes brasas por detrás dos olhos,

os cães ouviam o assobio,

o homem ouviu — lhe disseram é o que anda sem os pés,

o que se esgueira por entre as copas de árvore e não

é cobra e virá

 

encarnado é texto, oração, pensamento

 

desencarnado é sangue, suor, frio na espinha, a ameaça

da terra, o chão

 

 

(Do livro Mergulho às avessas, de Andréa Catrópa, publicado na coleção Caixa Preta, da Lumme Editor.)



Escrito por Claudio Daniel às 11h08
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GALERIA: HIERONYMUS BOSCH (XVI)



Escrito por Claudio Daniel às 12h59
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POEMAS DA CAIXA PRETA (II)

 

SEM CAUTÉRIO

 

Aqui a ferida

respira enquanto arde

sua metamorfose

solitária

para saber abrir

flore no ar

à flor da pele

nova

 

Está aqui e ferve

como se um sol

ardesse prestes

a desatá-la

dor de não saber

incerto tempo

transferir

um eu jorrado

fora

 

Esta que se recobre

escudo contra

casca sem fruto

polpa em brasa

labora enquanto

segrega sua cola

secreta cicatriz por

coda

 

Eis aqui o intato

campo de batalha

que o esquecimento

por fim ressecado

cimento tatuado

à superfície remende

e não se relembre

a furia quando

corta

 

um sono profundo

 

 

 

O OURO DO RISO CONTRA A NOITE

 

a Néstor Perlongher

 

Se te corta o ouro do riso contra a noite o agonizante membro exibe a distração que daí envolta um espelho dos raios os dedos torceu com um frágil arco a paisagem engloba lábios brandidos ao redor atravessada não  mais nem sequer à invasão dos olhos depois da quente chuva primeiro refracta de branco estanque deixando dentro de seu tremular que pensa o impulso de espuma congelada senão sustida ou sem pousar-se no campo da memória aterrissa se te sobe  eletrizado instante ao levitar e sair o motor de sucessivos agoras um mar que as realidades ou a luz desperta com seu giro  transpasso a voar no cenário se reação nem tanto à velocidade da visão a língua no zênite de pernas às vezes onde segue até por via de multiplicar ao brilho de estrelas o ouro  do riso contra a noite.

 

(Do livro Poemas diversos, de Elson Fróes, publicado na coleção Caixa Preta, da Lumme Editor.)



Escrito por Claudio Daniel às 12h58
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GALERIA: HIERONYMUS BOSCH (XV)



Escrito por Claudio Daniel às 12h49
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ENQUANTO ISSO, NO MÉXICO...

 

Caros, a revista La cabeza del moro, editada na cidade de Zacatecas, no México, publicou meu ensaio Pensando a poesia brasileira em cinco atos, traduzido ao espanhol pelo simpático Jair Cortés; outra revista mexicana, Luna zeta, editada em Oaxaca, publicou alguns de meus poemas, em tradução de Reynaldo Jiménez; e duas outras publicações, a revista Crítica, editada pela Universidade de Puebla, e La colmena, publicaram outras traduções de meus poemas, feitas por Sérgio Rios. Todas essas revistas saíram nos últimos três meses. Pois é, parece que o meu ibope vai bem na terra de Montezuma... besos,

 

CD  



Escrito por Claudio Daniel às 12h48
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GALERIA: HIERONYMUS BOSCH (XIV)



Escrito por Claudio Daniel às 11h42
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POEMAS DA CAIXA PRETA (I)

 

mãos

 

topázio na água

mil olhos de faca e cacto

antes de tocá-lo

 

ser dedos de seda e prata

recolhendo a gema calma

 

 

pedra preciosa

 

amor choveu ouro

mariposa, mariposa

na copa dos olmos

 

agora no chão pirata

amor é que é de prata

 

 

casa do poeta

 

a trilha de folhas

na área, um pernilongo

vizinhas notícias

 

vieram morar ao lado

três formigas fictícias

 

 

(Do livro Pincel de Kyoto, de Wilson Bueno, publicado na coleção Caixa Preta, da Lumme Editor.)



Escrito por Claudio Daniel às 11h42
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GALERIA: HIERONYMUS BOSCH (XIII)



Escrito por Claudio Daniel às 11h41
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