Cantar a Pele de Lontra III


GALERIA: GUSTAV KLIMT (II)



Escrito por Claudio Daniel às 00h14
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A ESCRITURA DO SONHO (I)

 

Ao representar a realidade como um sistema de signos em incessante mutação, o texto literário denuncia o caráter artificial da mímese naturalista, que define a realidade a partir da aparência imediata (e enganosa) dos fenômenos. A escrita de Ana Hatherly, guiando-se em sentido contrário ao da mímese, privilegia os jogos do imaginário, deixando explícita a sua intenção de criar um universo próprio pela palavra poética, universo lúdico e plurívoco. Sua arte fabulatória aproxima-se da lógica de construção e desenvolvimento da narrativa no sonho, que podemos considerar um tipo de discurso que transcende fronteiras de tempo, espaço e sujeito, ao mesmo tempo em que integra sons, imagens e idéias numa forma de “cinema mental”. A maneira como o sonho organiza cenas e seqüências pode ser comparada à linguagem cinematográfica, como se o olho fosse uma câmera e a mente um laboratório de edição e sala para a projeção de imagens.

 

O sonho é um território livre para a invenção “fílmica”, pois todos os fenômenos que observamos na experiência cotidiana podem ali ser alterados quanto à forma, sentido e função, mudando não apenas a sua natureza mas também a sua relação com os demais fenômenos. A liberdade criativa oferecida pelo estado do sonho, que não é regido pelos mecanismos de controle de nossa racionalidade cotidiana, já encantou escritores como Samuel Taylor Coleridge, William Blake, Gerard de Nerval, Antonin Artaud, Lautréamont, Jorge Luis Borges, André Breton e os surrealistas franceses, que na década de 1920 fizeram experiências que valorizavam a ação do inconsciente na criação da obra de arte, como a escrita automática e o jogo coletivo do “cadáver esquisito”. O caráter transformador do sonho, que subverte o sentido e a representação das coisas e a própria enunciação do discurso, fascinou também Ana Hatherly, que se deixou influenciar pelos procedimentos da escritura onírica na composição das Tisanas — por exemplo, no fragmento n. 390: “Acordo no meio da noite perturbada por um sonho extravagante: estou numa casa onde se passam coisas estranhíssimas. Numa das salas que percorro um cão recita os Salmos de David.” e sobretudo de Anacrusa.

 

(CONTINUA)



Escrito por Claudio Daniel às 23h32
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GALERIA: GUSTAV KLIMT



Escrito por Claudio Daniel às 23h26
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ANTI-REALIDADE (IV)

 

PRISMA IV

 

cristal negro, / réptil negro, / sub-reptícia / anã negra / (amarga) / entre folhas./ flor de abril / recrocita / olho- / de-búfalo:/  unhas traçam / a agrimensura / do escuro, / acendem lúnulas / de lacraias / até tropismo / de fetos / (para ver) (a beleza) / (que há no mundo) / (e em mim). / nenhuma porta / ou esta / que se abre, / esta / que se fecha, / este caminho, / nenhum caminho / (tudo) / (é labirinto). / entre piçarras / e rudimentos / de papoulas, / entre seios / e um agudo / senso / de alvura, / lavoura / de auroras / alteradas. / (pedra) / (é um jogo) / (como saltar) / (abismos), / (piscar) / (os ossos,) / (remoer) / (a rosa,) / (cinema) / (mental) / (ou séquito) / (de desatinos). / um, dissocia / mariposa; / dois, coagula / lunário; / três, escurecem / larvais, / restilo / de cores / abolidas. / tudo é mistério, / deslinde / de lanugens / até dessangrar / peixes-palavras. 

2008

 



Escrito por Claudio Daniel às 18h03
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Demolidor, o Homem Sem Medo, vai à luta contra a crítica literária sociologizante... 



Escrito por Claudio Daniel às 00h02
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ESCRITO EM FLOR (NOVA VERSÃO)

 

paisagem musical

onde o amarelo

dá sentido ao vermelho.

 

*

 

lábio (pétala)

submerge

em topázio-tigre,

até sangrar as ilhas

do desejo.

 

*

 

esfinge do espelho

ou cegueira:

(real) imaginária.

 

*

uma flor (a lebre), partículas do mundo nas retinas.

 

*

 

cada abelha sonha

uma rosa imantada.

 

*

 

violetas indagam

onde trópicos noturnos,

ritmos bruxos,

areias núbeis

de contato.

 

*

 

no avesso das pálpebras:

onde ver o porto

da viagem,

do mistério ao desatino. 

 

 

2004/08

 



Escrito por Claudio Daniel às 23h59
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Homem-Aranha salva Mary Jane de uma gangue de poetas marginais no Rio de Janeiro.



Escrito por Claudio Daniel às 23h08
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ANTICABEÇA (II)

 

Lona podre, nacos de carne, torsos caindo; escuras mariposas (stukas) caindo; sirenes, uma canção.

 

Bater nos cornos do céu, capricórnio adoece em luzes de urina; olhos blindados; cano de fuzil apontado para a lua.

 

Esferas ou cilindros de cérberos; o aço grunhe; rajadas de agni; fogos-fátuos; bocas lanhadas por detritos.

 

Há um pássaro de três cabeças, e um só canto; uma jovem nua flutua no céu.

 

Emily pediu um livro (borboleta voando) de gravuras coloridas (sonhada por um chinês), com capa veludosa (desejada por um gato) e marcador de páginas (com bigodes de mandarim).

 

Ela, que ama peônias, biombos, nanquins, e sonha ser enfermeira num grande hospital.

 

Ela, que ama o verde mar de gaivotas, e a prata que cintila nas peças do aparelho de chá.

 

Isso foi há quanto tempo? Havia um piano de cauda e lenços brancos, pedaços de carneiro e o pôr-do-sol.

 

Agora, só há o verde-prata, ou verde-escuro, verde-panther; na boca do dragão.

 

(Como um livro) (de figuras) (metálicas;) (imagens) (d’esqueletos) (turvos;) (surdos) (espectros) (em sarabanda,) (invernal.)

 

Palavras zumbem na mente; difícil caminhar com o peso do mundo. Este é um tempo sombrio, tempo da impureza, do branco mesclado ao amarelo.

 

Lao Tzu rumou para o Sul, montado num touro, búfalo ou grou. O guarda da fronteira pediu-lhe sua inútil sabedoria.

 

2008

 



Escrito por Claudio Daniel às 23h03
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GALERIA: ELEKTRA NATCHIOS (III)

Jennifer Gardner interpreta a ninja no filme do Demolidor.



Escrito por Claudio Daniel às 23h47
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ANTI-REALIDADE (III)

 

PRISMA III

 

até / dessangrar / peixes, / entre unhas. / pilhas / de palavras / rotas, / restos / de canção: / flor / de abril / em amarelo, / para ver / o escuro / no mundo / e em mim. / recrocita / labirinto / lunar, / corvo / de fetos / alterados. / há o gosto / amargo / do relógio, / uma anã / que só anda / para trás / e clotilde / estrangulada / num café / da rua aurora. / tudo é mental, / mariposas / ou seios, / pétalas / ou música, /rudimentos / de mistério / e mistério. / todo labirinto / é uma palavra / do deslinde / ao desatino /(sub-reptício réptil / foge / entre lúnulas). / cristal negro, / praia negra,/ papoula enegrecida / em sons larvais / até lavoura / de fétidos./  havia uma pedra, / havia uma rosa, / havia um abismo. /tudo / é cinema / mental, / praias / e palavras, / pilhas de ossos / podres. / alguma porta / ou nenhuma, / esta / ou aquela, / esse caminho, / qual caminho? / entre um senso / agudo / de extinção / e rudimentos / de lanugem, / entre o restilo / e o séqüito /de lêmures, /todo enigma / é incapaz /de abolir / o silêncio .

 

2008



Escrito por Claudio Daniel às 23h45
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GALERIA: ELEKTRA NATCHIOS (II)



Escrito por Claudio Daniel às 00h52
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ANTI-REALIDADE (II)

 

PRISMA II

 

olho-de-corvo; / um, crocita; / dois, arranha; / três, escurece; / quatro, engasga, / tropismo / de piçarras. / cristal negro, / búfalo negro, / palavra enegrecida / em urros / de lacraias. / sons vegetais, / sons minerais, / sons fecais, / dissociados / de sentido. / recrocita / réptil/ em folha / lunar, / sub-reptício / corvo / acende / música / até lavoura / de restos: / há um relógio / estrangulado / na praça / marechal / deodoro / e uma anã  / fazendo ponto / numa esquina / da rua aurora. /tudo é um jogo / de ossos / como saltar / à corda, / piscar / os olhos, / remoer / a canção. / tudo é cinema / mental. / entre seios / e rudimentos / de mariposas, /entre o mistério / e um agudo / senso / de extinção, / dessangrar / a beleza / (fuligem) / até um vago / perfume / de papoulas; / ou abrir a porta: /  não há caminho, /nenhum / ou este / que se fecha, / tudo é labirinto, / (deslinde) / desatino. /alvura, / lunário / de lúnulas: / unhas, / entre peixes.

 

2008



Escrito por Claudio Daniel às 00h51
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GALERIA: ELEKTRA NATCHIOS (I)

Jennifer Gardner, minha ninja favorita, no filme Elektra.



Escrito por Claudio Daniel às 16h16
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ANTI-REALIDADE (I)

 

PRISMA I

 

toda palavra / é um labirinto / (recrocita / corvo lunar), / (sub-reptício réptil / foge / entre folhas). / cristal negro, / búfalo negro,/ palavra enegrecida / em sons guturais, / espectros / de si mesmos. / flor de abril / acende música, / amarelo, / amarelo, / até lavoura / de fetos. / há uma anã / estrangulada / na praça marechal / deodoro; /há um relógio de ponto / que só anda / para trás; / a dentadura / de clotilde; / o gosto amargo / do café. / tudo / é cinema / mental, /pilhas de ossos- / palavras, /extintas praias, / labirinto / de cores / alteradas. / poema: / forma de ver / o escuro / que há no mundo / e em mim. / palavras caem / (fuligem),/ restos de canção: / ou abrir a porta: / entre seios / e rudimentos / de agrimensura, / entre o mistério / e um agudo / senso de beleza, / vago perfume / de papoulas, / até dessangrar / as pétalas / do canto. / nenhuma porta / (deslinde) / desatino;/ nenhuma / ou essa / que se fecha. / ou aquela, / qual,/  ou esta porta,/ este caminho,/ não há caminho./ restilo / de alvura / ou lanugem, / lúnula:/ peixes, / entre unhas. 

2008



Escrito por Claudio Daniel às 16h13
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